terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

YEMANJÁ, EM TODA A SUA CONCRETUDE DE ESPUMA DO MAR

Penso que a entidade
levou a flor
que eu estava com medo
de ofertar.

Penso que ela aceitou minha humilde oferenda
e veio beijar minhas mãos, em agradecimento,
levando as pétalas.

Foi um pacto entre espíritos,
à surdina,
como quem compra drogas ou troca vícios,
só olhares e os dedos entrelaçados.

Penso que o espírito saiu do mar,
leve,
e veio buscar aquilo
que eu tive medo de lhe entregar.

Ou talvez tenha sido a flor
que, Maria, sem vergonha,
se atirou nos braços do mar.

Ah! Yemanjá!
Perdão pela minha timidez.
O mundo todo parecia ouvir os meus anseios
e fiquei muda, assustada, como se fosse uma ofensa,
como se eu estivesse visada.

Mas por dentro o coração era sincero,
e a intenção me fez levar a flor
e pisar a areia quente de verão.

Oh! Perdão ao fraquejar
no pedido mais importante: Um grande amor!
Só entre estas linhas te posso confessar
o quanto quero oferecer e dar.

Ah! Aceite meus brotos como possíveis flores marinhas!

Meus pés lambidos pela tua suavidade de mar
e minha mão num discreto cumprimento
Foi o que consegui lhe doar.

Mas, por dentro,
o desejo salgado de me molhar,
mergulhar, afundar, neste mar de proteção,
Espumar com suas ondas de sensualidade.

No fundo o desejo de nadar
e te entregar, pessoalmente,
a mais linda rosa vermelha
Que alguém poderia lhe dar.

SALVE RAINHA!

E obrigada por ter vindo buscar...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

SAPATILHAS

Calçava as sapatilhas como quem
Calçava as botas de sete léguas.
Depois corria a rodopiar
No tablado iluminado.
Cada pirueta lhe lançava a um país.
Tinha nos olhos o brilho dos palcos,
Nas brancas mãos esculpia
Bonecos de neve.
Na platéia escura
Meu silêncio ofegante
Me denunciava
Como uma bala recém aberta.
Meus olhos grudados na sua retina
De menina-bailarina...
Dança pra mim!
Decalca no espaço seu corpo de moça,
Na ponta dos dedos colhe uma estrela...
E minha mente já no palco
Se travestia em seu par,
Homem-fogo
A levantar as asas de um anjo!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

ABRO O LIVRO SOPRA VELINHA

Hoje (14/01) meu filhotinho fez 1 ano... Meu filho é de papel...

(1 ano do lançamento do meu livro)

Meu rebento está soprando sua primeira velinha...

sábado, 26 de dezembro de 2009

TRANS BORDADO DE FLORES

O cimento pode ser leve como a brisa
Como o vento que sopra triste no rosto
Sepultado o cimento canta
Com rosas submersas

Dentro do rígido cimento há um rio
Morto como aquele presente esquecido
Morto como aquele sangue doce que um dia volta
Vivo como um bordado de flores

Sentado como quem rega um jardim
Vou costurando o meu passado
Contemplando a vida que continua
Gota a gota nas pegadas
Riso a riso nas lágrimas esquecidas

A canção antiga de leve volta
Beija o rosto, acaricia
Nas lembranças teu sorriso canta
E num abraço me rega a vida

Sei que a carne de outrora é rio
Que as mãos são delicadeza
E que a surpresa da tua chegada
Agora é infinita

Mas de surpresas se faz a vida
E é amamentando que se lambe a cria
É na toalha que envolve o corpo
Que o amor se pronuncia...

Na janela de um antigo prédio
A memória te traz infinda
Sorriso leve, aceno breve
Da sacada tu me traz a vida

Meu sangue é semente de uma árvore
Antiga. Plantada por teu rio
Se não estás mais, não chores,
Em mim estarás ainda.


(Para minha sempre Avó)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

(foto:Marcia Monjardim/manip. e corte: Tathi Treuffar)
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AINDA
Como chegaste
Se ainda não te vi
Penetraste meu sangue
Nas palavras que
Ainda não conheci
Como entraste
Tão fundo
Dentro de meu mundo
Se as ondas ainda não
Bateram aqui...


domingo, 27 de setembro de 2009

DESEJOS DE ACALANTOS

Música que arrebata a alma num coração de pedra e sal
Sempre essa muralha a pertencer ao esquecimento de sonhar
Quero o êxtase de alma que flutua, coração no pensamento,
Tilintar de sinos ao vento, a gente rodopiando no tempo...

Sempre esta dádiva acorrentada? Regalo de leite ao léu?!
Quero o céu das virtudes boas em volta do meu ser,
Numa dança leve de entorpecer... As más vizinhas nas entrelinhas
Podem gozar os momentos-pãs! Nada é errôneo ou desonesto

Quando o gesto é cálido... morno... implorante de sussurros sãos!
Estou ávida de amores-flores, bênçãos-rios, areias-luares!
Quero pares de idéias, ventos, pensamentos-pássaros!
Boca transparente de corações e línguas estrangeiras...

Só quero a vida-verso que ecoa por trás das fontes
O rio-vida que permeia por baixo das vazantes frias
A semente-terra que habita meu delicado ser exótico!
Imploro-te por Galileus e Galiléias, terras em promessas de Avatáres!

Sou a nua lua do teu pensamento-flor e é no licor que habita meu sangue,
Que o delicado veneno de estrelas fabrica a seiva que me cobre...
Me descobre desse manto feito de pecados duros, cartolas ao vento,
Quero o alento puro de almas que se piscam, ruborizadas pelos segredos compartidos!

Ah, terna manhã de alma... Me beije o ar que me falta quando murmuro meus desejos de acalantos
Sou o branco dessa névoa que me cobre, a canastra de Pandora com seu segredo de estrelinhas...
Meu pensamento é o néctar de minha língua peregrina, a romaria dessa aventura sem enredos,
Mas de sinas, boas de cantar... Meu lar é esta terra que cobre rios, os navios são as estradas,
Por onde de pés descalços me banho na certeza de um sonhar!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

QUANDO AMANHEÇO PRA DENTRO DE MIM

No silêncio da tua espera
Amanheço pra dentro de mim
Sol de meio-dia
Areia quente boa de deitar
Um mar em mim
Salgado
Chega-me doce a boca
É macio morar nesse lago
Onde meus cisnes sempre voltam
Aqui por dentro os amigos moram perto
E sempre desperto ao mirar meus olhos claros
Enquanto você não volta
Já sou outra, outra fase, outra atitude,
Outra latitude de mim se espalha no ar
Aqui não há soninhos da tarde,
Porque tudo está desperto
E bem perto da minha vontade
Por isso não faço alarde
Nem a tarde me arde,
Me rasgando, porque está tudo costurado,
Amarrado em rapel
Escalo minhas colinas
Por puro prazer de me desvendar
Subo, desço, me balanço,
E até pulo quando quero me soltar.
Enquanto vivo por aqui
Toda a minha criação
É real e possível
E só por isso te digo:
Que bom que você não veio!